sábado, 13 de dezembro de 2025

Cães e Humanos: Como a Criação Pode Afetar a Vida Adulta.

             Psicologia em Dia

Introdução de um Novo Tema.
Eu sou alguém apaixonada por Psicologia, então eu acho certo falar sobre isso nesse blog. Obviamente, vou falar apenas coisas baseadas na ciência e nas minhas reflexões sobre o assunto, mas nada que eu não saiba ou que seja mentira.

Numa manhã quase ensolarada do dia 9 de setembro, eu estava caminhando para a escola com minha irmã e meu pai. Como ela é mais calada pela manhã, eu conversava com meu pai sobre questões emocionais. Passamos por vários cachorros durante o trajeto, alguns rosnavam, outros latiam e outros nos ignoravam.

Então, vendo todos esses comportamentos diversos, refleti que cada um deles via o mundo de um jeito por causa da forma como foram criados. Nesse post, falaremos sobre como a criação afeta nossa vida, como o externo influencia o interno.

Pesquisa e Fatos Científicos.
🐶 Influência da Criação no Comportamento Canino
O comportamento de um cão é determinado por uma interação complexa entre genética e ambiente (criação/experiências). Pesquisas recentes sugerem que o ambiente e a criação podem desempenhar um papel até mais significativo do que a raça pura na determinação da personalidade de um cão.

Fatores Chave da Criação e Ambiente:
Socialização Precoce: A exposição a diversos estímulos (pessoas, etnias, idades, ambientes, ruídos, outros cães) nos primeiros meses de vida é fundamental. Uma socialização adequada prepara o cão para lidar melhor com novas situações, tornando-o mais adaptável e menos ansioso.
Qualidade do Treinamento e Interações: O uso de reforço positivo (recompensar bons comportamentos) é crucial para moldar o temperamento. O treinamento consistente e interações positivas com humanos e outros animais atenuam ou amplificam tendências comportamentais herdadas.
Ambiente e Dinâmica Familiar: O estresse, a rotina e o comportamento do tutor influenciam diretamente a personalidade e as emoções do cão. Tutores emocionalmente equilibrados tendem a criar cães mais equilibrados. Cães que vivem em ambientes estáveis e seguros desenvolvem maior confiança.

Experiências de Vida: Traumas, abusos ou negligência podem levar a medos excessivos, reatividade elevada e comportamentos compulsivos na vida adulta, exigindo cuidados diferenciados.
Em resumo: Embora a genética estabeleça um "esboço" do comportamento (ex: tendências de caça em Terriers ou facilidade de treinamento em Retrievers), é o ambiente que define a obra final. A socialização e o treinamento são determinantes para o desenvolvimento emocional e a adaptação social do cão.

Referências para Comportamento Canino:
Morrill et al. (2022). Genomic Variation in Dogs Is Associated with Canine Behavioral Traits. Science (Artigo que sugere que apenas cerca de 9% das diferenças de personalidade entre cães estão relacionadas à raça, com o ambiente desempenhando um papel maior).
Alexandra Rossi (Dr Pet). A criação influencia no comportamento dos cães? (Vídeo Short do YouTube sobre o tema, enfatizando a socialização e o reforço).
Petgenoma. Fatores que interferem no comportamento dos cães. (Artigo de blog com a opinião de especialistas).

🧑 Influência da Infância na Vida Adulta em Humanos
A infância é o período mais crítico para o desenvolvimento da estrutura da personalidade, da regulação emocional e dos padrões de relacionamento. As experiências vividas nos primeiros anos moldam o indivíduo na fase adulta.

Aspectos Principais da Influência:
Formação da Personalidade e Autoestima: A qualidade dos vínculos afetivos, o afeto, os limites bem estabelecidos e os exemplos positivos dos cuidadores (parentalidade) são centrais. Uma base segura de apego promove a confiança em si e nos outros, enquanto a negligência ou a humilhação danificam a autoestima e a identidade.

Impacto no Comportamento e na Saúde Mental:
Adversidades/Traumas: Abusos (físicos, emocionais, sexuais), negligência ou estresse tóxico na infância são fatores de risco significativos. Podem levar a traumas não resolvidos, resultando em ansiedade, depressão, dificuldades de concentração, transtornos psíquicos e até problemas de saúde física na vida adulta.
Modelagem de Respostas: Observar como figuras de referência enfrentam adversidades constrói um repertório de resiliência e flexibilidade. A ausência desse modelo pode resultar em dificuldades na resolução de problemas.
Tomada de Decisão e Valores: Os princípios éticos e morais transmitidos na infância, bem como o incentivo à autonomia (tomar pequenas decisões), formam a base das escolhas na vida adulta, influenciando a capacidade de liderança, a assertividade e as habilidades de adaptação.
Em resumo: A criança que fomos, com suas feridas e alegrias, ressoa na vida adulta. As experiências da infância (emocionais, sociais e traumáticas) influenciam a neuroplasticidade cerebral, afetando a forma como o adulto responde ao estresse e se relaciona com o mundo e consigo mesmo.

Referências para a Influência da Infância:
Marmot, M. (2004). The Status Syndrome: How Social Standing Affects Our Health and Longevity. (Trabalho que destaca as consequências longitudinais das desigualdades sociais e do estresse precoce na saúde ao longo da vida, mencionando a "carga alostática").
Aberastury, A., & Knobel. M. (1980). Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas. (Clássico da psicologia que aborda o desenvolvimento).
Erikson, E. (1976). Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar. (Obra fundamental sobre o desenvolvimento psicossocial e a formação da identidade).
Habib K. (2001). Neuroendocrinology of Stress. Endocrinol. Metab Clin North Am. (Trabalho científico que discute a neurobiologia da resposta ao estresse e a importância de proteger crianças do trauma).
Drieu, D., & Rebelo, T. (2015). Considerações sobre os sofrimentos da infância e a passagem para a idade adulta a partir da experiência das terapias psicanalíticas familiares. Pepsic. (Artigo com perspectiva psicanalítica).
Borges e Pacheco (2018). Pesquisa sobre prevalência de sintomas depressivos em crianças e adolescentes. (Estudo que relaciona afeto e suporte familiar com menor sintomatologia depressiva).

Minha Visão 
Embora sejamos considerados “superiores”, não somos diferentes dos cães nessa questão. Se eles viverem em um lar acolhedor e amoroso, refletirão isso, assim como se eles viverem em um lar instável, e isso não muda conosco. Apesar de haver o impacto negativo, existe a plasticidade, ou seja, eles podem aprender novos padrões se expostos a ambientes saudáveis, o que significa que ainda há chances de salvar sua percepção do mundo.

A meu ver, todos — animais e humanos — deveriam crescer em lares amorosos e seguros, mas sabemos que isso nem sempre é a realidade. Se você cresceu em um lar instável, saiba que isso não determina quem você será ou qual lar você dará a seus filhos. Você ainda pode decidir não repetir os padrões e dar estabilidade àqueles que, como você, precisam disso.

Pensar em mim como terapeuta daqui a um tempo me faz ter um senso de responsabilidade com tudo e todos. A infância — humana ou canina — deveria ser a fase mais nobre de qualquer existência, mas sabemos que, muitas vezes, ela é disfuncional e traumática.

Por isso, torna-se necessário desmitificar a ideia que “terapia é coisa de gente doida”. Não, terapia é coisa de gente que quer se curar sem machucar o outro, de pessoas que querem florescer sem roubar o sol de ninguém.

« O afeto é o fio invisível que guia tanto patas quanto passos. »

                             Com Amor, Lua.

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