Introdução de um Novo Tema.
Eu sou alguém apaixonada por Psicologia, então eu acho certo falar sobre isso nesse blog. Obviamente, vou falar apenas coisas baseadas na ciência e nas minhas reflexões sobre o assunto, mas nada que eu não saiba ou que seja mentira.
Numa manhã quase ensolarada do dia 9 de setembro, eu estava caminhando para a escola com minha irmã e meu pai. Como ela é mais calada pela manhã, eu conversava com meu pai sobre questões emocionais. Passamos por vários cachorros durante o trajeto, alguns rosnavam, outros latiam e outros nos ignoravam.
Então, vendo todos esses comportamentos diversos, refleti que cada um deles via o mundo de um jeito por causa da forma como foram criados. Nesse post, falaremos sobre como a criação afeta nossa vida, como o externo influencia o interno.
Pesquisa e Fatos Científicos.
🐶 Influência da Criação no Comportamento Canino
O comportamento de um cão é determinado por uma interação complexa entre genética e ambiente (criação/experiências). Pesquisas recentes sugerem que o ambiente e a criação podem desempenhar um papel até mais significativo do que a raça pura na determinação da personalidade de um cão.
Fatores Chave da Criação e Ambiente:
Socialização Precoce: A exposição a diversos estímulos (pessoas, etnias, idades, ambientes, ruídos, outros cães) nos primeiros meses de vida é fundamental. Uma socialização adequada prepara o cão para lidar melhor com novas situações, tornando-o mais adaptável e menos ansioso.
Qualidade do Treinamento e Interações: O uso de reforço positivo (recompensar bons comportamentos) é crucial para moldar o temperamento. O treinamento consistente e interações positivas com humanos e outros animais atenuam ou amplificam tendências comportamentais herdadas.
Ambiente e Dinâmica Familiar: O estresse, a rotina e o comportamento do tutor influenciam diretamente a personalidade e as emoções do cão. Tutores emocionalmente equilibrados tendem a criar cães mais equilibrados. Cães que vivem em ambientes estáveis e seguros desenvolvem maior confiança.
Experiências de Vida: Traumas, abusos ou negligência podem levar a medos excessivos, reatividade elevada e comportamentos compulsivos na vida adulta, exigindo cuidados diferenciados.
Em resumo: Embora a genética estabeleça um "esboço" do comportamento (ex: tendências de caça em Terriers ou facilidade de treinamento em Retrievers), é o ambiente que define a obra final. A socialização e o treinamento são determinantes para o desenvolvimento emocional e a adaptação social do cão.
Referências para Comportamento Canino:
Morrill et al. (2022). Genomic Variation in Dogs Is Associated with Canine Behavioral Traits. Science (Artigo que sugere que apenas cerca de 9% das diferenças de personalidade entre cães estão relacionadas à raça, com o ambiente desempenhando um papel maior).
Alexandra Rossi (Dr Pet). A criação influencia no comportamento dos cães? (Vídeo Short do YouTube sobre o tema, enfatizando a socialização e o reforço).
Petgenoma. Fatores que interferem no comportamento dos cães. (Artigo de blog com a opinião de especialistas).
🧑 Influência da Infância na Vida Adulta em Humanos
A infância é o período mais crítico para o desenvolvimento da estrutura da personalidade, da regulação emocional e dos padrões de relacionamento. As experiências vividas nos primeiros anos moldam o indivíduo na fase adulta.
Aspectos Principais da Influência:
Formação da Personalidade e Autoestima: A qualidade dos vínculos afetivos, o afeto, os limites bem estabelecidos e os exemplos positivos dos cuidadores (parentalidade) são centrais. Uma base segura de apego promove a confiança em si e nos outros, enquanto a negligência ou a humilhação danificam a autoestima e a identidade.
Impacto no Comportamento e na Saúde Mental:
Adversidades/Traumas: Abusos (físicos, emocionais, sexuais), negligência ou estresse tóxico na infância são fatores de risco significativos. Podem levar a traumas não resolvidos, resultando em ansiedade, depressão, dificuldades de concentração, transtornos psíquicos e até problemas de saúde física na vida adulta.
Modelagem de Respostas: Observar como figuras de referência enfrentam adversidades constrói um repertório de resiliência e flexibilidade. A ausência desse modelo pode resultar em dificuldades na resolução de problemas.
Tomada de Decisão e Valores: Os princípios éticos e morais transmitidos na infância, bem como o incentivo à autonomia (tomar pequenas decisões), formam a base das escolhas na vida adulta, influenciando a capacidade de liderança, a assertividade e as habilidades de adaptação.
Em resumo: A criança que fomos, com suas feridas e alegrias, ressoa na vida adulta. As experiências da infância (emocionais, sociais e traumáticas) influenciam a neuroplasticidade cerebral, afetando a forma como o adulto responde ao estresse e se relaciona com o mundo e consigo mesmo.
Referências para a Influência da Infância:
Marmot, M. (2004). The Status Syndrome: How Social Standing Affects Our Health and Longevity. (Trabalho que destaca as consequências longitudinais das desigualdades sociais e do estresse precoce na saúde ao longo da vida, mencionando a "carga alostática").
Aberastury, A., & Knobel. M. (1980). Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas. (Clássico da psicologia que aborda o desenvolvimento).
Erikson, E. (1976). Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar. (Obra fundamental sobre o desenvolvimento psicossocial e a formação da identidade).
Habib K. (2001). Neuroendocrinology of Stress. Endocrinol. Metab Clin North Am. (Trabalho científico que discute a neurobiologia da resposta ao estresse e a importância de proteger crianças do trauma).
Drieu, D., & Rebelo, T. (2015). Considerações sobre os sofrimentos da infância e a passagem para a idade adulta a partir da experiência das terapias psicanalíticas familiares. Pepsic. (Artigo com perspectiva psicanalítica).
Borges e Pacheco (2018). Pesquisa sobre prevalência de sintomas depressivos em crianças e adolescentes. (Estudo que relaciona afeto e suporte familiar com menor sintomatologia depressiva).
Minha Visão
Embora sejamos considerados “superiores”, não somos diferentes dos cães nessa questão. Se eles viverem em um lar acolhedor e amoroso, refletirão isso, assim como se eles viverem em um lar instável, e isso não muda conosco. Apesar de haver o impacto negativo, existe a plasticidade, ou seja, eles podem aprender novos padrões se expostos a ambientes saudáveis, o que significa que ainda há chances de salvar sua percepção do mundo.
A meu ver, todos — animais e humanos — deveriam crescer em lares amorosos e seguros, mas sabemos que isso nem sempre é a realidade. Se você cresceu em um lar instável, saiba que isso não determina quem você será ou qual lar você dará a seus filhos. Você ainda pode decidir não repetir os padrões e dar estabilidade àqueles que, como você, precisam disso.
Pensar em mim como terapeuta daqui a um tempo me faz ter um senso de responsabilidade com tudo e todos. A infância — humana ou canina — deveria ser a fase mais nobre de qualquer existência, mas sabemos que, muitas vezes, ela é disfuncional e traumática.
Por isso, torna-se necessário desmitificar a ideia que “terapia é coisa de gente doida”. Não, terapia é coisa de gente que quer se curar sem machucar o outro, de pessoas que querem florescer sem roubar o sol de ninguém.
« O afeto é o fio invisível que guia tanto patas quanto passos. »
Com Amor, Lua.
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